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    Sem categoria » terça-feira, 4 de agosto de 2009 »
    Meu Chefe Inesquecível

    É regra comum que não existe o chefe perfeito. Para os subordinados, todo o chefe tem um defeito qualquer. Isto não impede que todos nós, como subordinados, tenhamos um “chefe inesquecível”.

    No meu caso, que vivi três décadas a bordo de navios mercantes, vários chefes marcaram minha carreira. Uns de uma maneira positiva, outros nem tanto.

    Meu chefe inesquecível já tinha muitos anos de profissão – desde os navios a vapor da Costeira – e trabalhava na Fronape. Era um “cearenso” de Fortaleza.

    O primeiro contato com ele foi muito difícil. Não o conhecia e não gostei muito do “jeitão” dele. Suas feições eram muito fechadas (para não dizer “de brabo”), ou melhor, tinha cara de poucos amigos; mas, como não havia outra maneira, teria que conviver com ele sob os mesmos tetos (ou anteparas).

    O tempo passou e vim a conhecer melhor aquele chefe “brabo”. Julgamentos apressados quase sempre são errados! O homem era um ser humano especial. Sua história na marinha mercante já corria os portos e os navios. Nas conversas da popa quase sempre uma história do chefe alegrava o ambiente. Se estão curiosos com elas, aprendam estas:

    A esposa do chefe, nos tempos da Costeira, gostava de dar umas incertas nos portos do nordeste. Ele era novo e as tentações também existiam naquela época. Um dia ela chega do Rio de Janeiro bem cedinho, com o sol raiando. Foi direto para bordo do navio, certa de que estava agradando. Quando chega ao convés do navio o marinheiro de quarto, que já a conhecia, cumprimentou-a, um tanto nervoso. Logo ela alcança o camarote do chefe e se depara com ele dormindo, de terno de linho, sapato e o indefectível chapéu Panamá, comum naquela época. Mas, como velho lobo do mar, ele safou-se dizendo que havia passado a madrugada na rodoviária na certeza de que o ônibus do Rio não iria atrasar. Mal sabia que ela havia voado de Constelation da Panair….

    Mas meu chefe inesquecível também era um tremendo profissional. Tudo para ele na praça de máquinas de um navio poderia ser consertado. Se dentro da técnica normal não fosse possível, ele inventava uma nova técnica.

    Uma de suas passagens mais marcantes, para mim, deu-se quando uma tubulação de água salgada rompeu-se. Não tínhamos tubos a bordo para substituí-la. Para qualquer um de nós o problema seria insolúvel. Para ele não.

    – “Segundo (eu), procure o mestre e peça para que ele traga todos os baldes de tinta que estiverem vazios. Depois peça para providenciar todo os rolos de barbante possíveis”.

    O navio boiava e o chefe querendo barbante para amarrar a rede!!!! Não me contive e questionei o reparo que ele tencionava fazer. Aí ele veio com a seguinte pérola de técnica:

    * “O que não tem remédio remediado está. O que vamos fazer será uma solda a tinta que durará até que todos esqueçam que ela está lá. Acho até que o navio vai ser vendido e nossa solda estará no mesmo lugar!”

    E assim foi feito. O chefe amarrou lonas de borracha na tubulação, com dezenas de voltas de barbante e passou toda a borra de tinta disponível em cima do barbante. Boiamos mais doze horas e, quando a borra de tinta secou e a bomba começou a bombear água salgada para o sistema, ficou provado que tinta também é solda para as ocasiões de emergência.

    Só um chefe como aquele já sabia disso e aplicaria sua técnica com toda a consciência.

    As histórias do meu chefe inesquecível poderiam preencher o espaço de várias revistas, mas não poderia me furtar de confidenciar dois defeitos do meu chefe. Ele não suportava flamenguista e não gostava de pilotos. Deus, em sua inteligência suprema fez com que seu neto mais velho fosse flamenguista doente e que sua filha mais nova se casasse com um piloto.

    Já ia terminando meu artigo sem dizer o nome do homem que homenageio neste momento. Ele, que dizia que, entre todos os lugares que visitou no mundo, nada era mais bonito que a Ilha de Paquetá (nem Paris), chamava-se Manoel de Oliveira. Mas, até hoje, lembramos com muito carinho do chefe Marreta.

    Creio que, pela sua bondade, Deus nomeou-o o chefe das máquinas da fábrica das boas realizações do céu.

    por OSM Délio Henriques de Almeida

    Comentários

    1. Ricardo Girão Rios disse:

      Imperdível!
      Que esse artigo do OSM Délio incentive os nossos colegas a escrever sobre a nossa Marinha Mercante. Espero, em um dia não muito distante, ler uma compilação de resumos como este, escritos por gente que “bebeu água do Peak Tank”, para que o tempo não apague experiências, sonhos, esperanças, frustrações, amizades, decepções, enfim, para que não se extingam totalmente vidas tão interessantes quanto a do OSM Manoel de Oliveira, meu conterrâneo.

      Jorge Amado escrevia muito bem, mas usava a fértil imaginação como principal ingrediente dos seus romances. Por exemplo, sua narrativa das peripécias do “famoso” Capitão de Longo Curso Vasco Moscoso de Aragão é muito prazeirosa de se ler. Se Jorge Amado houvesse sido marítimo, tenho certeza que suas estórias reais sobre a gente do mar poderiam fazer tanto sucesso (ou mais) quanto suas ficções. Délio escreveu este artigo “com a alma”, e por isto merece os nossos parabéns. Escrevam também, caros colegas. Nossa Marinha Mercante tem tantas estórias, tantos personagens interessantes! Encontrem um tempinho e vão registrando fatos que aconteceram hoje, ontem ou há muito tempo, estórias que vocês presenciaram ou simplesmente escutaram, mesmo que não pareçam verdade. Se não tiver pretensões de tornar-se um escritor, envie para quem vocês acham que tem esse dom. O Brasil precisa e merece ler ficção marinheira mesclada com fatos reais.

      Saudações Marinheiras

      CLC Ricardo Girão Rios

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